A história do Serial Killer Brasileiro que fazia linguiça de carne humana

Sabe quando você compra um lanche no centro da sua cidade e fica com medo a respeito da procedência da comida? Temendo, por exemplo, estar comendo um espeto de churrasquinho feito com carne de gato? Nos anos de 1860, os moradores de Porto Alegre temiam muito mais do que carne de gato em seus lanches.

Cenário

No ano de 1863, começou a atuar aquele que talvez tenha sido o segundo serial killer brasileiro de que se tem dados (o primeiro foi Preto Amaral). José Ramos era um inspetor de polícia nascido no estado de Santa Catarina – um rapaz elegante, que frequentava apenas os melhores lugares da cidade gaúcha e tinha um gosto musical refinado. José havia fugido de seu estado natal após matar o próprio pai, e desde então passou a morar em Porto Alegre, que na época tinha população de 20 a 40 mil pessoas.

José trabalhava como açougueiro e era conhecido na cidade por vender linguiças preparadas por ele e sua esposa, Catarina Pulse, uma descendente alemã que, reza a lenda, viu seu primeiro marido se matar na sua frente. Juntos, José e Catarina protagonizaram crimes dignos de filmes de terror na Rua do Arvoredo (hoje, Rua Fernando Machado).

A cidade estava registrando uma grande quantidade de desaparecidos que nunca retornavam, e os relatos e investigações fizeram com que a polícia considerasse José Ramos como um dos suspeitos. Após uma visita à casa do açougueiro, a polícia descobriu um poço desativado, onde foram encontrados os corpos do taverneiro Januário Martins Ramos da Silva e seu caixa, um garoto de 14 anos, José Ignacio de Souza Ávila, além de um cachorro preto, que havia sido cortado da garganta até o abdôme. Foi a partir daí que a história de José Ramos passou a ser investigada, detalhada e passada de geração para geração.1

A história

Desde aquela época, passou a ser contado que Catarina, com sua beleza, seduzia as vítimas (principalmente viajantes) e as levava até a casa onde moravam, na Rua do Arvoredo. Lá, os pobres viajantes eram iludidos com boa comida e bebidas, cegos pela obsessão de ter uma noite de luxúria com Catarina. Mas esses momentos de prazer seriam interrompidos brutalmente. Quando achava que era o momento, Ramos desferia um certeiro golpe de machadinha que partia a cabeça das vítimas em dois pedaços.

Era a partir desse momento que o açougueiro, junto com seu amigo Carlos Klaussen, cortava os corpos em fatias que eram acondicionadas em baús. Posteriormente, a carne passava pelo moedor, onde virava guisado e era transformada em linguiça. O açougue de José ficava na Rua da Ponte (hoje, Riachuelo), e diz-se que a linguiça resultante desse banho de sangue era apreciada por muitos portoalegrenses. O curioso é que nem mesmo o açougueiro que ajudava José sobreviveu à brutalidade da dupla. Depois de uma discussão com o comparsa, Carlos acabou virando uma das vítimas. José ficou marcado na história gaúcha como o ‘Linguiceiro da Rua do Arvoredo’, e seus crimes são retratados em uma série de livros, peças teatrais e documentários.2

Polêmica

Uma história de 150 anos atrás não poderia estar livre de polêmicas e contradições. A imprensa da época praticamente ignorou os fatos que aconteciam na Rua do Arvoredo, à exceção de um memorial (foto abaixo) que relata a ocasião em que o corpo do comparsa Carlos Klaussen fora encontrado nos porões da sua casa.

O historiador Décio Freitas, que escreveu o livro ‘O Maior Crime da Terra’, relata que todos os processos que tratam sobre os crimes realizados na Rua do Arvoredo estão incompletos, e o que existe está praticamente ilegível, já que é escrito em português muito antigo, e de forma manuscrita.3

Catarina foi quem disse que seu marido preparava linguiça com as vítimas, mas Décio, em seu livro, diz que apenas as folhas faltantes nos processos é que poderiam dar algum indício de que isso realmente é verdade.

No fim, José foi condenado à forca, enquanto Catarina foi internada em um hospício – e lá faleceu.

Esteja a verdade onde estiver, é impossível caminhar pelo Centro Histórico de Porto Alegre, pelos arredores da Rua Riachuelo e Fernando Machado, sem sentir um arrepio ao lembrar da história.4